18-10-2007
contos inacabados, volume um:
Às quartas, lavamos o pátio coberto. Quinta, aproveitamos o horário de visita e as aulas de pintura para lavarmos o pátio externo. Sexta-feira, é o dia dos banheiros.
Bergman, eu estava lá, recolhendo a merda do patrão, as mãos devidamente protegidas por luvas limpando a privada onde ele caga - como todo burguês com alimentação saudável - duas vezes ao dia, e pensava em como mudar as coisas. Ainda estava com nossa conversa sobre tomar um rumo, de como poderíamos ter uma vida menos ordinária e, esfregando uma mancha que parecia de porra no chão, pensei que a primeira providência a tomar era arranjar um outro emprego.
Passar o dia datilografando, organizando fichas, dizendo bons dias aos que passam por minha mesa. Porque uma coisa é enfiar o dedo no cu de uma puta qualquer e recompensá-la por atender tão prontamente esse fetiche com uma boa sessão de sexo oral; beijar uma boca que acaba de engolir meu esperma, vá lá, mas não há prazer ou dinheiro que compense esfregar o lugar onde seu patrão, que sequer o cumprimenta, repousa a bunda branca e gorda para cagar e bater punheta.
E eu tava lá sentindo um asco imenso de mim mesmo por me sujeitar a empregos assim (sim, eu já tive de lavar banheiros outras vezes, antes de parar aqui no asilo) quando descobri um dos caminhos para uma vida menos bosta: tenho de pedir Jude em casamento, Bergman.
05:49 Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail


Comentários
Eu sempre gostei desse texto.
Escrito por: Yane | 21-10-2007
Senti o cheiro amoníaco e de fezes, mais o cheiro de sexo mal correspondido. Escatalogicamente gostoso.
Escrito por: Clarissa Macau | 06-11-2007
escatologicamente*
Escrito por: Clarissa Macau | 06-11-2007
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