31-07-2008
nada de novo sob o sol.
São Paulo, 27 de junho de 2006
Maga, Maga.
Escrevo mentalmente esta carta enquanto você morde meu ombro e contenho o impulso de cantarolar que o meu coração eu sei porque bate feliz quando te vê. Você então pergunta no que penso e invento logo qualquer bobagem enquanto me ajeito entre suas pernas; falo da vez que quase venci na sinuca mas você já não me escuta e se contorce tímida e pede que a beije, o que faço prontamente. E assim a madrugada - e nós mesmos - nos perdemos, entre carícias assustadas e promessas de eternidade. Eu lhe prometo o mundo, mesmo sabendo que duas horas mais tarde, você estará agoniada de ter minha mão atada à sua.
Sei que quando iniciar de fato essa carta, estarei em Buenos Aires [ou a caminho de], racionalmente louco à cata de notícias suas. [Estarás mesmo em Montevidéu? Nos braços de Ireneo ou outro negro qualquer? Estarás talvez perdida no cais? Pateticamente bêbada, oferecendo-se a cada marinheiro com a desculpa de que via neles todos o meu rosto?]. Mas agora, que estamos exaustos e você tem um sorriso tão satisfeito como o meu e sua voz começa a ter sono e seus olhos dizem coisas descontextualizadas, sinto uma grande ternura por você e tento demonstrá-la neste abraço onde você se aconchegou e agora dorme.
- Você quer soltar a mão?
- Não.
- Tem certeza?
Tem. Você sempre tem certeza de tudo, mesmo quando são abstrações e imagens que a consomem durante dias e não ganham palavras; você sempre sabe as epifanias que te mandarão pra longe e boa parte de minhas dores nascem daí, Maga. Porque no próximo instante, não serei nada, talvez uma lembrança, aquele passeio no zoológico, as madrugadas que passávamos sob marquises, repletos de frio e ideais.
És tão linda dormindo, Maga, envolvida em silêncio e sonhos. Tenho de controlar o impulso de acordá-la com um rompante, dizendo que recebi um telegrama urgente do Sindicato dos Oficiais Marceneiros e Trabalhadores nas Indústrias de Móveis e Madeira, de Serraria, Carpintaria, Tanoarias, Madeiras Compensadas e Laminadas, Aglomerados e Chapas de Fibras de Madeira, de Móveis de Junco e Vime e de Vassouras e de Cortinados e Estofos de Atenas somente para que você gargalhe e bata em meu braço, pois estava dormindo e sonhava com peixinhos e veja lá se isso é jeito de acordar alguém. Eu insistiria sobre a gravidade do telegrama e de como minha presença era importante, então você pediria com graça para que eu parasse de brincar e lhe deixasse dormir. Começaria a contar que tenho estudado sobre a vertigem e outras egocentrices e que escrevo longos artigos que jamais serão publicados em canto algum, no máximo arrancarão comentários jocosos do Clube, ou o que ainda resta dele. Você me encararia com bastante admiração e te puxaria novamente para meu abraço para que dormíssemos.
...
Nunca fui a Buenos Aires, tampouco Maga retornou à Montevidéu.
Não me chamo Julio Cortázar.
Não escrevi romances, não recebi telegramas.
O que o tempo - esse deus feroz - não modificou, não tornou um signo ridículo é essa imagem das mãos unidas: pelas ruas, sob marquises, durante o sexo.
O resto é o que há de mais bonito e não aprendi a suportar.
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08-01-2008
no próximo ato:
- Me deseje boa noite, amor.
- Boa sorte, amor.
06:34 Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail
04-12-2007
:
alguém aí morreu por mim?
13:39 Permalink | Comentários (4) | Enviar por e-mail

